Epígrafe

 A quem se deparar pelo absoluto acaso com estes registros, não prometo a minha vivabilidade.

Este espaço respira, espaçadamente, os acontecimentos de minha vida, e, por a vida se fazer lenta e continuamente, não há rotineira escrita aqui.

Não somente por isso, mas dada a imprevisibilidade dos acontecimentos, posso eu ter partido a muito tempo sem ter tido a devida oportunidade de fazer aqui a minha devida despedida, a epígrafe de meu túmulo.

Então torno aqui a minha introdução, o prólogo dos meus registros vitais, também a minha conclusão.

Nunca aspirei pelo marco de meu nome em alguma literatura. As minhas escritas sempre se fizeram em momentos por vezes belos e gratificantes, assim como pelas vezes difíceis e dolorosas, mas de toda forma igualmente inspiradoras.

Li certa vez que a felicidade não cabe na escrita, transborda às páginas. De certa forma é sim verdade, pois não me recordo até o momento de ter escrito alguma vez enquanto estive um dia experienciando a mais pura felicidade. Todas as vezes que escrevi, até pelas mais belas vezes, estava embriagado por uma dose alta de melancolia.

Apesar deste pesar aqui afirmado, sinto que uma importante ressalva deve aqui ser feita: ao caro e desavisado leitor que por qualquer motivo se der a disposição de ler o que aqui escrevi, peço que não fixe à mente esta visão tão unilateral da minha existência. Obviamente que não o culpo por chegar a tal conclusão sobre a minha pessoa, pois é de minha responsabilidade ter-me-eu narrado no viés da melancolia. 

Não vivi somente preso às margens da tristeza. Experienciei sim a felicidade, a satisfação e a esperança, apenas não tive razão para escrevê-las neste tão reservado aberto espaço. Do que vivi até o momento deste epitáfio, no pesar de todas as coisas, tive uma vida balanceada em todos os sentimentos que estamos alheios a sentir, e me considero imensamente sortudo disto.

Precisei um dia escrever as minhas dores, caro leitor. Precisei escrever a minha ingenuidade. Até as minhas desesperanças escrevi. Mas não se permita crer que é somente disto que se trata esta vida de quem a viveu. As consolações da Melancolia foram o bálsamo do meu viver, e por esta razão vínculo tão recorrente e próximo mantive com a dama. Não só aprendi apreciar a impermanência da vida, mas mantive-me a dançar o baile ao som desta doce, triste e bela sinfonia.

- Carlos R.

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